Bullying: o que fazer para combater a prática? (2024)

Bullying: o que fazer para combater a prática? (1)

O bullying pode estar presente em qualquer ambiente escolar, e um dos primeiros passos para começar a resolver o problema é reconhecendo que ele provavelmente existe na sua instituição de ensino. “A escola que afirma não ter bullying ou não sabe o que é, ou está negando sua existência”, diz o pediatra Lauro Monteiro Filho, fundador da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia).

É necessário, segundo o especialista, informar professores e alunos sobre a questão, deixar claro que a prática não será admitida no estabelecimento e atuar de maneira efetiva no combate ao bullying.

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A escola não deve ser apenas um local de ensino formal, mas também de formação cidadã, de direitos e deveres, amizade, cooperação e solidariedade. Agir contra o bullying é uma forma barata e eficiente de diminuir a violência entre estudantes e na sociedade, afirma o especialista da Abrapia. A instituição, inclusive, sugere as seguintes atitudes para um ambiente saudável na escola:

  • Conversar com os alunos e escutar atentamente reclamações ou sugestões;
  • Estimular os estudantes a informar os casos;
  • Reconhecer e valorizar as atitudes da garotada no combate ao problema;
  • Criar com os estudantes regras de disciplina para a classe em coerência com o regimento escolar;
  • Estimular lideranças positivas entre os alunos, prevenindo futuros casos;
  • Interferir diretamente nos grupos, o quanto antes, para quebrar a dinâmica do bullying.

Abaixo, você confere uma seleção de conteúdos da NOVA ESCOLA, como reportagens e planos de aula, que ajudam a comunidade escolar a compreender o que é o bullying, diferenciá-lo de outras situações que ocorrem na escola e, principalmente, pensar de que forma é possível prevenir e combater o problema antes que outras situações de violência escolar aconteçam, inclusive ataques em escolas.

O que é bullying?

O bullying é uma situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. O termo bullying tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português, é entendido como ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato.

É uma das formas de violência que mais cresce no mundo, afirma Cléo Fante, educadora e autora do livro Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Segundo a especialista, o bullying pode ocorrer em qualquer contexto social, como escolas, universidades, famílias, vizinhança e locais de trabalho. O que, à primeira vista, pode parecer um simples apelido inofensivo pode afetar emocional e fisicamente o alvo da ofensa.

O que não é bullying?

Discussões ou brigas pontuais não são bullying. Conflitos entre professor e aluno ou aluno e gestor também não são considerados bullying. Para que seja bullying, é necessário que a agressão ocorra entre pares (colegas de classe ou de trabalho, por exemplo). Todo bullying é uma agressão, mas nem toda a agressão é classificada como bullying.

Para Telma Vinha, doutora em Psicologia Educacional e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para ser entendida como bullying, a agressão física ou moral deve apresentar quatro características:

  • Intenção do autor de ferir o alvo;
  • Repetição da agressão;
  • Presença de um público espectador;
  • Concordância do alvo com relação à ofensa.

Quando o alvo supera o motivo da agressão, ele reage ou ignora, desmotivando a ação do autor, explica a especialista.

Este é um fenômeno recente?

O bullying não é um fenômeno recente,sempre existiu. O primeiro a relacionar a palavra a um fenômeno foi Dan Olweus (1931-2020), professor da Universidade da Noruega, no fim da década de 1970. Ao estudar as tendências suicidas entre adolescentes, o pesquisador descobriu que a maioria desses jovens tinha sofrido algum tipo de ameaça e que, portanto, o bullying era um mal a ser combatido.

A popularidade do fenômeno cresceu com a influência dos meios eletrônicos, como a internet e as reportagens na televisão, pois os apelidos pejorativos e as brincadeiras ofensivas foram tomando proporções maiores.

O que é cyberbullying?

O cyberbullying é o tipo de agressão que ocorre em meios eletrônicos, com mensagens difamatórias ou ameaçadoras circulando por e-mails, sites, blogs (os diários virtuais), redes sociais e celulares. É quase uma extensão do que os alunos dizem e fazem na escola, mas com o agravante de que as pessoas envolvidas não estão cara a cara.

Dessa forma, o anonimato pode aumentar a crueldade dos comentários e das ameaças, e os efeitos podem ser tão graves quanto presencialmente ou ainda piores. O autor, assim como o alvo, tem dificuldade de sair de seu papel e retomar valores esquecidos ou formar novos, explica Luciene Tognetta, doutora em Psicologia Escolar e pesquisadora do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinhas (Unicamp).

Como lidar com o cyberbullying?

O cyberbulling precisa receber o mesmo cuidado preventivo do bullying, e a dimensão dos seus efeitos deve sempre ser abordada para evitar a agressão na internet. Trabalhar com a ideia de que nem sempre se consegue apagar aquilo que foi para a rede dá à turma a noção de como as piadas ou as provocações não são inofensivas.

O que chamam de brincadeira pode destruir a vida do outro. É também responsabilidade da escola abrir espaço para discutir o fenômeno, afirma Telma Vinha.

O que o bullying pode causar para as vítimas?

É necessário em primeiro lugar identificar o alvo das ofensas, que costuma ser uma criança ou um jovem com baixa autoestima e retraído tanto na escola quanto no lar. Por essas características, dificilmente consegue reagir, afirma o pediatra Lauro Monteiro Filho, da Abrapia. Por causa desse perfil, entra a questão da repetição no bullying, pois, se o aluno procura ajuda, a tendência é que a provocação cesse.

Além dos traços psicológicos, os alvos desse tipo de violência costumam apresentar particularidades físicas. As agressões podem ainda abordar aspectos culturais, étnicos e religiosos.

O aluno que sofre bullying, principalmente quando não pede ajuda, enfrenta como consequências o medo e a vergonha de ir à escola. Pode querer abandonar os estudos, não se achar bom para integrar o grupo e apresentar baixo rendimento.

Uma pesquisa da Abrapia revela que 41,6% das vítimas nunca procuraram ajuda ou falaram sobre o problema, nem mesmo com os colegas. Já aqueles que conseguem reagir podem alternar momentos de ansiedade e agressividade.

Também é importante entender que tanto o bullying com agressão física quanto aquele praticado com agressão moral são graves. “A dificuldade que a escola encontra é justamente porque o professor também vê uma blusa rasgada ou um material furtado como algo concreto. Não percebe que uma exclusão, por exemplo, é tão dolorida quanto [uma agressão] ou até mais, explica Telma Vinha.

Diferenças de agressões praticadas por meninos e meninas

Especialistas indicam que é possível identificar diferenças entre o bullying praticado por meninos e por meninas. As ações dos meninos são mais expansivas e agressivas, portanto, mais fáceis de identificar. Eles chutam, gritam, empurram, batem.

Já no universo feminino o problema se apresenta de forma mais velada. As manifestações entre elas podem ser fofocas, boatos, olhares, sussurros, exclusão. As garotas raramente dizem por que fazem isso. Quem sofre não sabe o motivo e se sente culpada, explica a pesquisadora norte-americana Rachel Simmons, especialista em bullying feminino.

O bullying acontece na Educação Infantil?

Entre as crianças menores, é comum que as brigas estejam relacionadas às disputas de território, de posse ou de atenção - o que não caracteriza o bullying. No entanto, por exemplo, se uma criança apresentar alguma particularidade, como não conseguir segurar o xixi, e os colegas a segregarem por isso ou derem apelidos para ofendê-la constantemente, trata-se de um caso de bullying na Educação Infantil.

Estudos na Psicologia afirmam que, por volta dos dois anos de idade, há uma primeira tomada de consciência de ‘quem eu sou’ separada de outros objetos, como a mãe. E perto dos três anos, as crianças começam a se identificar como um indivíduo diferente do outro, sendo possível que uma criança seja alvo ou vítima de bullying. Essa conduta, porém, será mais frequente em um momento em que houver uma maior relação entre pares, [uma relação] mais cotidiana”, explica Adriana Ramos, pesquisadora da Unicamp e coordenadora do curso de pós-graduação As Relações Interpessoais na Escola e a Construção da Autonomia Moral, da Universidade de Franca (Unifran).

O que fazer diante de bullying contra alunos com deficiência?

Conversar abertamente sobre a deficiência é uma ação que deve ser cotidiana na escola. O bullying contra esse público costuma ser estimulado pela falta de conhecimento sobre as deficiências, sejam elas físicas ou intelectuais, e, em boa parte, pelo preconceito trazido de casa.

De acordo com a psicóloga Sônia Casarin, diretora do S.O.S. Down - Serviço de Orientação sobre Síndrome de Down, em São Paulo (SP), é normal os alunos reagirem negativamente a uma situação desconhecida. Cabe ao educador estabelecer limites para essas reações e buscar erradicá-las não pela imposição, mas por meio da conscientização e do esclarecimento.

A violência moral e física contra estudantes com necessidades especiais é uma realidade velada, mas que pode ser revertida por meio do diálogo aberto sobre a deficiência, da adaptação de rotinas de aprendizagem e da interação com a família e a comunidade escolar, por exemplo.

Professores também podem sofrer bullying?

Normalmente, quando falamos em bullying na escola, discutimos formas de diminuir esse tipo de violência entre os alunos. Entretanto, o bullying também pode ocorrer contra os professores, e abordagens para lidar com esse problema são menos frequentes.

Ser intimidado no ambiente profissional pode fazer o docente repensar a sua profissão e trazer graves consequências para a saúde emocional. Para lidar com o problema, é preciso ter atenção para o clima e a cultura escolar, para a responsabilidade dos gestores e para a gestão de sala de aula, de acordo com Ana Carolina C D'Agostini, psicóloga e pedagoga, nesta coluna da NOVA ESCOLA.

Como prevenir e combater o bullying?

Segundo o pesquisador José Maria Avilés Martínez, doutor em Psicologia e professor da Universidade de Valladolid, na Espanha, a pior coisa que o professor pode fazer é fingir que nada aconteceu diante de uma situação de bullying.

“Sempre digo aos professores que eles precisam se antecipar. Já sabem que esse problema existe em todas as escolas e que eles são parte da solução. Por isso, quando um professor está explicando um exercício e acontece algo, ele precisa saber exatamente qual mensagem vai passar para vítima, agressor e demais alunos. Nessa hora, ele tem algumas opções. A pior delas é fingir que nada aconteceu e seguir lecionando”, afirma o especialista.

Ao identificar um caso de bullying em sala de aula, é preciso intervir imediatamente. Se algo ocorre e o professor se omite ou até mesmo dá uma risadinha por causa de uma piada ou de um comentário, vai pelo caminho errado. Ele deve ser o primeiro a mostrar respeito e dar o exemplo, afirmou em entrevista à NOVA ESCOLA em 2010 Aramis Lopes Neto (1952-2014), então presidente do Departamento Científico de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria.

O professor pode identificar os atores do bullying: autores, espectadores e alvos. É claro que existem as brincadeiras entre colegas no ambiente escolar. Mas é necessário distinguir o limiar entre uma piada aceitável e uma agressão. Isso não é tão difícil como parece. Basta que o professor se coloque no lugar da vítima. O apelido é engraçado? Mas como eu me sentiria se fosse chamado assim?, orienta o pediatra Lauro Monteiro Filho.

Além disso, ao agir com os alunos envolvidos, é preciso atuar para a recuperação de valores essenciais, como o respeito pelo que o alvo sentiu ao sofrer a violência. A escola não pode legitimar a atuação do autor da agressão nem humilhá-lo ou puni-lo com medidas não relacionadas ao mal causado, como proibi-lo de frequentar o intervalo.

Já o alvo precisa ter a autoestima fortalecida e sentir que está em um lugar seguro para falar sobre o ocorrido. Às vezes, quando o aluno resolve conversar, não recebe a atenção necessária, pois a escola não acha o problema grave e deixa passar, alertou Aramis Lopes.

Ainda é preciso conscientizar o espectador do bullying, que endossa a ação do autor. Trazer para a aula situações hipotéticas, como realizar atividades com trocas de papéis, são ações que ajudam a conscientizar toda a turma.

Diante de casos extremos, a primeira ação deve ser mostrar aos envolvidos que a escola não tolera determinado tipo de conduta e por quê. Nesse encontro, deve-se abordar a questão da tolerância ao diferente e do respeito a todos, inclusive com os pais dos alunos envolvidos.

Mais agressões ou ações impulsivas entre os envolvidos podem ser evitadas com espaços para diálogo. Uma conversa individual com cada um funciona como um desabafo, e é função do educador mostrar que ninguém está desamparado.

Os alunos e os pais têm a sensação de impotência, e a escola não pode deixá-los abandonados. É mais fácil responsabilizar a família, mas isso não contribui para a resolução de um conflito, diz Telma Vinha, que também aponta que a conversa em conjunto com todos os envolvidos não pode ser feita em tom de acusação. Deve-se pensar em maneiras de mostrar como o alvo do bullying se sente com a agressão e chegar a um acordo em conjunto. E, depois de alguns dias, vale perguntar novamente como está a relação entre os envolvidos, explica.


Depois de compreender o que é o bullying e possibilidades para combater esse problema, confira um plano de aula sobre o o impacto dessa prática na vida em sociedade.

*Texto publicado em 01/09/2016 e atualizado em 04/04/2023 para acréscimo de informações

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